O que a origem familiar revela sobre o aprendizado nas escolas brasileiras?

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Você sabia que com algumas informações acerca da família de um estudante é possível conhecermos mais sobre quão bem ele pode ir em uma prova de português ou matemática? Dito de forma mais geral, coisas como o aprendizado na escola e o sucesso da sua jornada escolar são fortemente afetadas pelas condições de origem familiar de um estudante.

Isso são coisas que a pesquisa educacional vem demonstrando, pelo menos, desde o famoso Relatório Coleman de 1966. De forma bem direta, esse relatório mostrou que crianças originadas de famílias mais pobres tinham desempenho pior que aquelas de famílias mais abastadas, mesmo estudando em escolas semelhantes. A conclusão do relatório foi que a renda e a escolaridade dos pais eram os principais determinantes do desempenho escolar dos filhos, enquanto uma parcela muito menor poderia ser atribuída a escola, fato que tornou-se alvo de muitas investigações até hoje.

Mas o que isso significa para o Brasil? E qual o papel da escola nessa história?

Aqui entra a nossa pesquisa

Eu e o professor Elder Maia (UFAL) analisamos dados de mais de 70 mil escolas públicas brasileiras entre 2019 e 2021 para entender o tamanho do impacto que a origem social dos estudantes exerce no aprendizado. Nossa intenção, nesse primeiro momento, é entender se e quanto origem familiar e desempenho educacional estão relacionadas no contexto nacional. A propósito, agradecemos a Fapeal – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas por contribuir com o financiamento dessa pesquisa, uma vez que não seria possível realizá-la sem ele.

Porém, como não tivemos acesso aos microdados dos estudantes (restritos pela LGPD), precisamos usar os dados agregados por escola, que são os mesmos dados usados para calcular as notas do IDEB. Entre outras coisas, coletamos dados para o

  • INSE (Indicador de Nível Socioeconômico) médio da escola, calculado pelo Inep. Varia de 0 a 10 e é construído a partir de informações sobre a escolaridade dos pais ou responsáveis e a posse de bens e recursos no domicílio dos estudantes. Quanto mais próximo de 10, maior o nível socioeconômico médio dos alunos daquela escola em relação à média nacional.
  • Nota média de matemática no 5º ano, medida pela avaliação do Saeb. De forma simplificada, a escala vai de 0 a 500 pontos, mas, na prática, as escolas se concentram longe dos extremos. Quanto maior a pontuação, maior o nível de proficiência em matemática, indicando que os estudantes dominam mais conteúdos e habilidades avaliados.

Nosso raciocínio era bastante simples: Se a origem familiar, medida como INSE, realmente influencia o aprendizado, escolas com nível socioeconômico mais alto deveriam ter notas mais altas em matemática, mesmo quando comparadas a escolas semelhantes.

O que descobrimos?

O resultado foi claro:

  • Cada aumento de uma unidade no INSE médio da escola esteve associado a +23 pontos na nota de matemática. Imagine duas escolas na mesma cidade, com perfis de gestão e de professores muito parecidos. Nossa análise mostra que a escola com um conjunto de alunos de nível socioeconômico mais alto terá, em média, uma nota 23 pontos superior em matemática. Esse efeito foi maior do que o impacto de diversas características internas da escola, como formação e o esforço dos professores, o tamanho das turmas ou a distorção idade-série.
  • Mas não para por aqui. Mesmo que escolas já tenham bons indicadores, o fato de ela residir em uma cidade que possui maior nível socioeconômico lhe confere uma vantagem de 18 pontos em matemática em média. Isso significa que as escolas se beneficiam por ter vizinhos mais ricos, para além do perfil médio dos seus próprios estudantes e das características escolares que comparamos.
  • Porém, esse efeito não afeta a todos da mesma forma. Nem sempre ter maior nível socioeconômico vai conferir maior desempenho médio de certeza. Nós identificamos que o efeito do INSE sobre a nota em matemática é mais forte em algumas cidades. Isso significa que, de alguma forma (que não exploramos nessa pesquisa), algumas redes de ensino conseguem fazer mais com menos, diminuindo o impacto da origem familiar sobre os resultados educacionais. Essas escolas, deveriam ser estudadas futuramente de forma qualitativa para sabermos o que elas fazem e assim transferirmos conhecimentos.

Em resumo: Nossos resultados demonstram que a composição socioeconômica da escola e o contexto da cidade influenciam fortemente o aprendizado em uma escola. E isso significa que as escolas públicas não são neutras em relação às desigualdades.

A pergunta agora é “por que isso importa?”

Se as diferenças na origem familiar afetam significativamente o aprendizado, significa que a família, de certo modo, funciona como um limitador dos horizontes educacionais de um estudante e a escola, por sua vez, contribui negativamente legitimando essas desigualdades. Por tanto, um alerta que nossa pesquisa pode fazer é que políticas educacionais focadas apenas para dentro da escola podem ter um efeito limitado.

Se, de forma agregada, escolas com maior nível socioeconômico são também aquelas com maior desempenho de aprendizado, a relação sugere que isso pode ser verdade para o nível dos estudantes em si (infelizmente, não temos acesso aos dados no momento para dar estimativas precisas). Porém a relação é clara, estudantes com maior nível socioeconômico tendem a se beneficiar mais rapidamente de melhorias internas à escola.

Para que a escola possa realmente cumprir seu papel de reduzir as desigualdades educacionais, precisamos pensar políticas públicas mais efetivas que atuem anteriormente e externamente à escola. Políticas que contribuam para:

  • Redução da pobreza infantil
  • Acesso a bens culturais no nível das famílias
  • Apoio às famílias em situação de vulnerabilidade
  • Orientação pedagógica junto as famílias

Considerações finais

Essa pesquisa foi nosso primeiro passo acerca do estudo dessa relação, mas seus resultados se alinham com algo que outras pesquisas nacionais ]já mostraram:

  • Escolas compostas majoritariamente por estudantes de origem socioeconômica mais alta têm, em média, melhor desempenho no Saeb e no Ideb. Comparar o IDEB, por exemplo, de duas escolas na mesma cidade pode não ser justificável se as elas forem muito diferentes em termos da composição social dos seus estudantes.

Isso não significa que a escola não importe. Ela importa e muito. Mas, para que ela possa ser cada vez mais justa, ela precisa contar com políticas públicas que combatam desigualdades no seio da origem familiar dos estudantes.

Ao mesmo tempo, é urgente que políticas educacionais levem em conta as diferenças de origem familiar nas práticas cotidianas escolares. Continuar tratando de forma igual estudantes de origens tão diferentes acarretará no aumento da desigualdade no sucesso escolar.

Para quem tiver o interesse em saber mais sobre como realizados essa pesquisa, seus detalhes metodológicos e limitações, deixo o link para o artigo completo: <https://www.contemporanea.ufscar.br/index.php/contemporanea/article/view/1300>.

Caso tenham interesse, estamos aberto a feedbacks.

Este artigo foi publicado originalmente no meu perfil do LinkedIn. [Link]

1 comentário em “O que a origem familiar revela sobre o aprendizado nas escolas brasileiras?”

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