A educação estadual de Alagoas comemorou as 37 medalhas alcançadas nas últimas olimpíadas brasileira de física – o que, de fato, deve-se fazer. Um estado que durante anos patinou em todos os indicadores educacionais básicos deve sim enaltecer marcos como esses. Contudo, a distribuição das medalhas saltam aos olhos de qualquer leitor atento:
Nada menos que 54% do total de medalhas advém do desempenho de apenas duas escolas. E essas duas escolas compartilham algumas características peculiares.
A mais patente: são escolas militares do estado – o que já as diferenciam da esmagadora maioria das escolas da rede estadual. O Colégio da Polícia Militar Tiradentes (CPMC), em suas unidades Agreste e Maceió, levaram nada mais nada menos que 20 das 37 medalhas que a rede estadual conseguiu.
Mas o que elas ainda têm mais em comum? INSE (Indicador de Nível Socioeconômico) médio-alto, IDEB elevado e altas taxas de aprendizado adequado. São também as únicas que chegaram à etapa nacional. O padrão não é coincidência: é estrutura. Portanto, o resultado não é acidente. É a expressão estatística de uma desigualdade estrutural bem conhecida: o desempenho escolar segue, em larga medida, o nível socioeconômico dos alunos. Quando controlamos pelo INSE, o que parece mérito muitas vezes é ponto de partida.
Isso não diminui o esforço dos estudantes dessas escolas. Mas nos obriga a perguntar: o que estamos medindo quando medimos mérito em um sistema tão desigual?
Por outro lado, há casos que me parecem ainda mais notáveis. Sete escolas estaduais, com INSE médio-baixo, IDEB abaixo de 5 e taxas de aprendizado adequado muito baixas em matemática também subiram ao pódio.

A EE Professora Irene Garrido, em Maceió, conquistou 8 medalhas nessas condições. Esses casos merecem pesquisa séria. O que explica esses resultados? Professores excepcionais? Lideranças escolares? Redes de apoio informal?
Entender essas exceções não é curiosidade acadêmica, mas o caminho para uma política educacional que funcione para todos.
Os dados atestam mais uma vez: as desigualdades de origem são determinantes para o desempenho escolar. Ainda assim, há exceções que iluminam o caminho Entender essas exceções é, possivelmente, a forma mais eficiente de desenhar políticas educacionais que funcionem onde mais precisam funcionar.
Os dados atestam a desigualdade. Mas também apontam, timidamente, um caminho.
Para saber mais
Recentemente escrevi mais sobre esse assunto:
- O que a origem familiar revela sobre o aprendizado nas escolas brasileiras?
- Desigualdades educacionais e desempenho em escolas públicas brasileiras na disciplina de matemática, em co-autoria com o professor Elder Maia (PPGS/UFAL)


